Ir para o conteúdo

Confira primeira parte da conversa com a produtora da JAM! 

alt

Semanalmente, mais de mil pessoas vistam a JAM no MAM para curtir as experiências sonoras e visuais que o projeto proporciona nos finais de semana baianos. Atrás de toda a estrutura “aparentemente” simples, uma equipe eficiente trabalha duro para que tudo funcione sem estresse. E atrás dessa equipe está Cacilda Povoas, que encontra tempo entre suas peças de teatro e livros de poesia para coordenar a produção da JAM durante todo o ano. Com a chegada de dezembro, publicamos aqui a primeira parte* de uma entrevista onde ela fala sobre o passado, presente e futuro do projeto, além de apontar as conquistas da JAM esse ano.

Como você descreveria a Jam no MAM hoje?
Cacilda Povoas – Vejo a JAM no MAM hoje como um espaço que reúne músicos residentes na cidade e de passagem por ela, para tocar e improvisar música instrumental. Os músicos anfitriões, quero dizer, os músicos da Banda Base da JAM estão entre os melhores músicos da cidade. Com certeza temos na nossa Banda Base, repleta de estrelas, alguns dos melhores músicos do Brasil! Mas ser o melhor músico não é suficiente para cumprir esse papel de músico de banda base de uma jam session. Além de conhecer muito o seu instrumento e os standards é necessário, sobretudo, ser capaz de ouvir e interagir, interessar-se pelo outro músico, por aquilo que ele traz de seu, pela sua voz, seu modo de tocar e interagir com aquele que está ali. Pode ser outro músico que ele nunca viu antes, pode ser um músico que quando ele começou a tocar era para ele uma referência... Ou pode ser um garoto abusado que sempre está na JAM, esperando a oportunidade para tocar!

Existe um “perfil” dos músicos da Banda Base?
 O músico da banda base tem que ser alguém bem formado, com um bom repertório e muito interessado em interagir e fazer música com as mais diferentes e inesperadas pessoas.  Essa Banda Base da JAM no MAM tem muitas caras, não só aqueles nomes que estão ali no site, mas vira e mexe conta com Fred Dantas, Luizinho Assis, Paulinho Andrade, Letieres Leite e tantos outros! Essa banda base sabe muito bem acolher e interagir com os mais diversos músicos que passam pela JAM, sem ensaio prévio, sem repertório predefinido, sem saber quem virá essa noite compartilhar o palco... Eles se lançam na música! É essa interação sem programação que atrai e deleita esse público maravilho que a JAM no MAM reúne. Esta é a alma da JAM no MAM, é o que anima, dá vida à JAM no MAM.

Convivendo de perto com toda a evolução do projeto, você acha que ele realmente ajudou a solidificar a qualificação da música instrumental em Salvador?
Este é um momento muito feliz da música instrumental em Salvador. Chegou tarde, mas chegou finalmente o curso de música popular da UFBA. Foi criado também o curso de música da Fundação Cultural, isso tudo num momento quando o Neojibá começa a abrir novos núcleos de orquestras além das fronteiras da cidade. Sem dúvida hoje, em Salvador, o espaço para o estudo formal do instrumento se diversificou e o que já existia se requalificou. Estamos num momento muito especial. Tudo isso contribui para a cena da música instrumental soteropolitana. A contribuição da jam session na formação de um músico está, sobretudo, na possibilidade de tocar num ambiente onde a regra número um é tocar, num ambiente cujo objetivo é fazer música com os demais parceiros que a fortuna lhe trouxe. Tudo mais numa jam session está em segundo plano! Não é preciso tocar mais baixo para não incomodar o cliente que está jantando, nem é preciso tocar a música de trabalho da banda. Quem define o repertório é quem está no palco, quem vai tocar. Se os músicos acharem que naquele momento é o momento de tocar fortíssimo, eles vão tocar! Nada, nem ninguém os impedirá. Esse espaço de liberdade do músico é fundamental para um certo tipo de música instrumental que tem na improvisação o seu elemento privilegiado. Para esse tipo de música, para esse tipo de músico, tenho certeza que a JAM no MAM e todas as demais jam sessions que Ivan Huol convocou, seja na pré história da JAM no MAM, como a jam no Pátio do ICBA, seja no interregno quando ficamos sem JAM no MAM, como a jam na Praça, todas contribuíram e continuam contribuindo. Muitos músicos se iniciaram nessa linguagem musical, nessas jam sessions convocadas por Ivan Huol. Marcelo Galter é um deles. E tem uma nova geração frequentando a JAM no MAM, que já recebeu uma boa formação e está chegando para essa linguagem já com ares de gente grande, como Felipe Guedes.

Você acha que as pessoas têm consciência disso?
Não é preciso ter consciência para fruir essa música que eles tocam por lá. Continuamos com o apoio da Secretaria de Cultura. Então o Secretário Albino Rubim tem consciência! O Festival de Música Instrumental prestou uma homenagem a Ivan Huol por esse trabalho que ele desenvolve na cidade. A Câmara Municipal fez uma sessão em homenagem à JAM no MAM. Quando completamos dez anos, homenageou a todos os músicos da Banda Base. Ganhamos o edital da Oi, então os gestores do Oi Futuro devem ter consciência. Acho que não posso dizer que as pessoas não tem consciência. Mas posso dizer que quero que mais pessoas conheçam e saibam da importância da JAM no MAM, não só na formação das novas gerações de músicos, como na formação de público, na formação de um repertório, que vem configurando um Real Book local, um livro real dessa jam soteropolitana.

Recentemente vários eventos têm procurado se associar à JAM para suas promoções.  Por que?

Seria uma boa pergunta para fazermos às produções desses eventos que nos visitaram... Por que procuraram a JAM? Quando o maestro Carlos Prazeres nos procurou, depois de declarar no Roda Baiana que iria invadir a JAM, ele nos disse que queria aproximar a OSBA da comunidade. Realmente temos um evento semanal, de música instrumental, que tem uma grande adesão do público. Isso atrai os demais eventos e produtores, sobretudo quando se trata de uma orquestra que supostamente tem um público em comum, um público que aprecia música que não tem na palavra o seu elemento privilegiado, como a canção. Numa terra de tantas canções fortes, numa terra que vende para todo o mundo suas baladas, sambas, afoxés, conseguir também fazer para um grande público uma música que prescinde da palavra é uma vitória! Para nós a vinda da OSBA para a JAM foi um grande presente! É bom que se diga que nesse dia nós tivemos o maior público do ano! Quando ainda estávamos acertando com a OSBA essa participação na JAM, recebemos o telefonema de Sofia Federico com a idéia de fazer a premiação dos Festival 5 Minutos na JAM. Nós recebemos a proposta com muito entusiasmo, pois estava se realizando um antigo sonho. A JAM sempre foi frequentada pelos profissionais do audiovisual. É interessante observar isso. Em conversas informais com Sofia, sempre ficávamos aventando a possibilidade de exibir os filmes do 5 Minutos nos intervalos entre as músicas, aquele tempo entre a saída de uma canja, a entrada de outra e o tempo de combinar que música irão tocar em seguida. Por fim, foi a vez do FIAC nos procurar, nesse caso não para fazer um evento em conjunto, mas para fazer o Ponto de Encontro em seguida à JAM, utilizando parte da nossa estrutura espartana... Tivemos também a vinda dos alunos da Julliard School que nos incluiu em sua programação, realizando duas participações na JAM. Foi realmente um ano que a JAM ganhou muitos presentes e foi lembrada por diversos projetos. Ficamos muito felizes porque percebemos que esse serviço que prestamos à sociedade tem se tornado aglutinador de propostas e ações. Uma coisa que começou a acontecer já quando agregamos a improvisação musical à improvisação com imagens, capitaneada por Flávio Lopes, desde novembro de 2009.

*Em breve, publicaremos aqui a segunda parte da entrevista com Cacilda Povoas.