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Marcas de patrocínio e incentivo

Sobre a Comunidade do Unhão, o MUSAS e outras coisas sobre as quais você deveria ter ouvido falar...!  


Todos os sábados o público da JAM no MAM frequenta a área externa do Museu de Arte Moderna da Bahia para curtir o som sempre instigante do projeto de música instrumental que é um dos mais fiéis da agenda cultural de Salvador. E acaba curtindo também a vista deslumbrante do lugar – da qual faz parte a Comunidade do Unhão, com suas casas debruçadas sobre o mar. Mas a verdade é que muitos não sabem sobre o dia-a-dia das pessoas que formam essa comunidade, dos seus hábitos ou conexões artísticas.

Sede do MUSAS na Comunidade do Unhão.

Pensando em mudar essa realidade, o site da JAM entrevistou Júlio Costa, grafiteiro (entre muitas outras coisas) que vem desenvolvendo há alguns anos com um grupo de artistas o projeto do MUSAS na Comunidade do Unhão. Bem ali, ao lado da JAM!
Um convite direto para abrirmos nosso olhar e sentidos ao que acontece em nossa volta e, quem sabe, construirmos juntos uma nova cidade, a partir das diversas identidades artísticas que estão pulsando cada vez mais em Salvador.

Explique pra gente o que é o MUSAS.
Júlio Costa – É a sigla para Museu de Street Art Salvador. Pensamos em museu ao ar livre composto por toda a comunidade e nossa casa como uma sede, uma sala desse grande museu.  Que não pensa com postura assistencialista, mas acredita que pode interferir no ambiente como um todo, por isso existem algumas atividades como aula de fotografia, cinema no bairro, música, e como a maioria envolvida é de street art, temos um polo de graffitis, que está aberto para todas as artes. Independente de tudo, um local aberto à cultura em geral, que cuida e pensa na cidade de Salvador.

Quem são as pessoas envolvidas no projeto?
Eu sou idealizador, diretor artístico, comunicação, redes sociais e o responsável pelos jardins do MUSAS, além de grafiteiro. Bigod Silva e Marcos Prisk são Sócio-idealizadores e grafiteiros. Thais Muniz é Relações Publicas e curadora do Breshop do MUSAS. Camila Souza e Tiago Santos são curadores/mantenedores do Cine-Mu, sessão de cinema que acontece toda semana no MUSAS.

Equipe MUSAS: Bigod, Júlio, Vinícius, Thaís e Marcos!

Que tipo de ações vocês desenvolvem?

Promovemos a mescla de universos e culturas na comunidade, motivados pela arte, que tem estimulado o cuidado e a autoestima dos moradores com o entorno, além de pensar em ações que desenvolvam a consciência ambiental, social e politica através de reutilização do lixo, cultivo e plantio, exposições. Ainda há muito por ser feito, que está no campo dos ideais a serem atingidos, como o laboratório de serigrafia, as oficinas de pranchas de stand up paddle de pet, a vinda de alguns artistas e interventores culturais, a oficina de pintor para construção civil, oficina de aplicação de papel de parede, enfim... Acreditamos nessas interferências permeadas pela arte, pela moda, pelo design, pela música. E, acima de tudo, é um ponto de cultura sem tantos protocolos.

Aula de fotografia com Rogerio Ferrari.

Há quanto tempo ele existe?

Formatado como MUSAS, desde 24 de janeiro de 2011, sendo que ele é a continuação de projetos antigos desenvolvidos pelo coletivo de grafite Nova 10 Ordem, que atuava com mutirões de pintura e outras ações em comunidades menos assistidas, há cerca de quatro anos.

Grafite das artistas gauchas Nina e Jamaika Santarem em uma casa da Comunidade do Unhão.

Como aconteceu o primeiro contato com a comunidade?
Surgiu a partir do convite de Tico Sant'ana, mestre de capoeira conhecido na comunidade, que chamou Prisk, Bigod e eu para realizarmos a pintura de um painel em homenagem à Revolta dos Malês. Quando chegamos, ficamos encantados com as possibilidades desse local mágico e voltamos algumas vezes depois – e foi muito bom também pela boa receptividade da comunidade.

Qual é o público que interage diretamente com vocês através desse projeto?
Interessados e curiosos por arte em geral, seja morador da comunidade, seja de fora. É um universo de pessoas dispostas e ativas, e a troca entre quem mora e não mora lá é fluida; e acreditamos que acrescenta! Outros artistas, músicos, designers, estilistas, ativistas culturais, do Brasil e de fora, têm frequentado o bairro, que é naturalmente encantador, mas se limitava ao MAM. Da comunidade, a interação é grande com as crianças que entram e saem da casa todo tempo, e participam muito das atividades. E os mais velhos também, como S. João, de 80 anos, que nunca deixa de ir ao Cine-Um; e os jovens que sempre vão pra lá, não deixam de assistir aos filmes, volta e meia perguntam o que vai passar na semana... Quando acontece o Breshop, são as mães e mulheres que se aproximam pra ver as novidades. É muito bom, porque cada atividade seduz um tipo de público.

O  gafiteiro Neto Furo pintando.

O que mudou na comunidade desde que vocês começaram com o MUSAS?
Com certeza ela ficou mais colorida e nós mais bronzeados...! (Rsrs) A comunidade agora tem um cine-teatro ativo e é famosa pela moqueca de Dona Suzana, que reativou seu restaurante devido o aumento do fluxo e demanda. A movimentação no bairro ficou mais tranquila para pessoas que não são de lá, porque acabam tendo o MUSAS como uma boa referência, um bom motivo para estar. E sempre fazemos de tudo para estimular essa frequência de pessoas, de novos laços, outros artistas, outras oficinas, outras ideias. Acontece uma marginalização muito grande do bairro, mas acreditamos que vai se tornar (e deve) mais um belo ponto de visitação e de estimulo à arte na cidade. A vista é incrível, as pessoas são amáveis, o banho de mar é um dos melhores, e as pessoas estão começando a descobrir isso. Logo em breve teremos mais um ateliê de arte lá, porque o artista plástico Zaca Oliveira, amigo e colaborador do MUSAS, já está se mudando pra lá... Acreditamos que mais coisas boas ainda podem acontecer.

Qual seria hoje o principal preconceito em relação à comunidade?
Por conta da televisão, a maioria acha que lá só moram marginais, que se você for à praia vai ser roubado, que não pode estar com uma câmera ou um celular, que será roubado... Felizmente a verdade é outra e quem entra se apaixona, percebe as inúmeras famílias que não passam fome, que trabalham, estudam; conhece pessoas lindas, e com histórias pra contar!

Revistaria.

O que pode ser feito para isso mudar?
Acho que já está mudando e nosso desejo é que mais pessoas ouçam falar da comunidade, que vejam as fotos, os vídeos, as atividades, os graffitis, o pôr-do-sol, e sintam vontade de conhecer e quebrar esse tabu.
 
Como o projeto se mantém?
Eu, Prisk e Bigod somos os responsáveis pelo aluguel da casa, dividimos por três, e temos esse compromisso. Sempre destinamos uma parte do cachê de outros trabalhos para os custos da casa, que funciona como sede do museu a céu aberto. Temos um Breshop, que vende roupas estilosas usadas e é também uma espécie de lojinha de museu, onde vendemos produtos relacionados ao MUSAS. O Breshop funciona através de doações de roupas, sapatos, bolsas, bons e bonitos, mas que ficam em desuso no armário. Nós as selecionamos e vendemos; então, sempre fazemos campanhas de arrecadação. Além disso, usamos métodos antigos, como a ‘vaquinha’, por exemplo. Damos sempre um passo de cada vez, mas também temos amigos e colaboradores que acreditam em nossos sonhos. Precisamos de apoio, mas acreditamos que é possível fazer com o que temos.

Grafite de Júlio, Prisk e Bigod na casa de Seu Joao.

Convivendo de perto nessa área, como você acha que as pessoas dali enxergam a JAM no MAM?

Como uma fonte de renda, porque a cada sábado se mobilizam pra guardar os carros, e o MAM é o quintal das crianças, que invadem a parte externa pelos locais mais diferentes possíveis para pular no mar – e a JAM é uma extensão disso. Ao mesmo tempo, vejo eles sempre na porta tomando conta de carro, ou vendendo cerveja. Acho que podiam estar dentro como público, ao menos para saberem como é de perto. Não tenho esses dados, mas acredito que o bairro não entra muito na festa.

Que sugestões vocês dariam para aproximar a comunidade das pessoas que frequentam a JAM?
Alguma ação que desmistificasse que são diferentes, tanto pra comunidade quanto para o público da JAM. Dar acesso a algumas pessoas como público... Recentemente os meninos ganharam muitas flautas e ficaram tocando. Poderia ser maravilhoso se algum músico pudesse ensinar algo a eles. Enfim, talvez seja falta de aproximação por falta de oportunidade... Mas muito pode ser feito!

A artista Clara Domingas.

Como podemos conhecer o MUSAS de perto? Existe um dia de ações abertas, ou um telefone de contato?
O MUSAS está aberto quase todos os dias, mas o ideal é que seja uma visita agendada, que pode ser pelo nosso facebook: facebook.com/ilovemusas, ou pelos telefones 71 9108-7795/ 9314-0108/ 9233-6005/ 9128-5383. Nosso site é o www.ilovemusas.com. E através dele e do facebook, principalmente, divulgamos as programações e atividades que irão acontecer.
 
O que as pessoas ainda não sabem, mas que deveriam descobrir em relação à Comunidade do Unhão?

Os bares tem as vistas mais lindas da cidade; ali as crianças ainda vivem de maneira intensa, não na frente de computadores; a praia é linda; conhecer o tempero de Dona Suzana e o geladinho depois do almoço; ter um lugar para fazer uma pintura ou uma colagem, ou, para as que têm vontade de ensinar algo, usar o ateliê, fazer uma exposição, enfim.. A comunidade é aberta!

Obra do artista carioca Kaja Man.